domingo, 18 de abril de 2010

Daquilo que é incerto

De todos possíveis caminhos, escolhi o da dúvida. Tem algo a ver com a minha independência, eu acho. Ter certezas é trabalhoso demais, sempre precisa-se de um outro para que ela exista. O incerto, pelo contrário, é auto-suficiente, basta-se por si mesmo.
Posto isto, sei que a dúvida me acompanhará a todos os lugares, enquanto a certeza abandonar-me-ia no primeiro tropeço alheio. Crer é desgastante. Necessita-se de paciência e olhos fechados, pois até mesmo piscá-los poderia destruir todo o império de convicções que nos impomos.
A incerteza é a mãe da vida nova. Não há tédio nem rotina, pois todos os dias são únicos e o futuro é um paradoxo, tão distante quanto o espaço em branco entre quem sou e o que fui.

terça-feira, 13 de abril de 2010

And I can't feel anything

Eu falo sobre a ausência. Não de algo palpável ou concreto, mas sim daquilo que é invisível aos olhos. Refiro-me a falta parcial ou completa de sentimentos. É aquele vazio familiar e impreenchível, um branco, uma pausa; algo que, definitivamente, não está ali.
Talvez haja algo de errado comigo, um defeito de fábrica, se é que posso chamar assim. Estou impassível,  isto agita-me. Eu deveria gritar, esmurrar as paredes ou, quem sabe, a mim mesma. No entanto, sou como uma escultura de gelo, fria, vazia, inatingível.
Não sentir dói. Machuca pois não se sabe o que falta, fere pelo simples fato de não existir. Definitivamente há algo errado, como se houvesse uma falha na minha programação. Não compreendo o que se passa comigo, divago palavras aleatórias buscando alguma resposta, só o que sei é que dói. Em alguns momentos, sobe-me o gosto da bile, o gosto estrangulado de algo que não se encaixa, da falta daquilo que sequer sei explicar.
Não sei viver no meio-termo.

domingo, 11 de abril de 2010

Be my poison

Revira-me do avesso.
Exponha minhas vísceras, tira-me o ar.
Seja o meu veneno e eu lhe beberei.

Deixa-me gritar, esmurrar minha própria face. Eu preciso disso, ninguém sabe o quanto eu preciso!
Vou caminhar a esmo buscando um pouco de explosão. Quero o estrago, quero a confusão.

Make me feel baby, make me feel.

domingo, 21 de março de 2010

Dos dias em que me sinto meio sujeito inexistente

É algo que se apodera de mim, um vazio sem apostos, do medo que machuca como ferro em brasa. Então falta o ar, asfixiando pouco a pouco todos meus planos. Perco o alicerce, some o chão, e a perfeição do pretérito transforma-se em um futuro sem conjunções.
Conjugo verbos em primeira pessoa, mas a ausência de um pronome faz com que eu queira gritar. E vou perder a voz, vou perder a cabeça, vou perder o pouco que de mim que resta, só para depois me encontrar novamente. A um raio de mil quilômetros, a alguns anos luz, somente e apenas longe.
Já não quero pensar, deixe o acaso tomar conta de mim, enquanto vou sumindo,
esmaecendo,
desaparecendo,
até que da oração sobre a frase, da frase a crase e da crase o ponto final.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Aquela que encontramos pelo caminho

Olha quem vem pela estrada: Ela. Tão enigmática, majestosa, divinamente impiedosa. Seu modo de caminhar, jogando os cabelos ao vento, desvirtua os pensamentos de qualquer andarilho que cruzar pelo seu caminho. Seu brilho era ofuscante, até mesmo o sol escondia-se ao vê-la passar e o seu perfume misturava-se com a brisa, aquele cheiro inconfundível do ar que sobe do abismo.
Tinha uma força inexplicável, que atraía todos para a sua enorme teia. Era cruel. Ninguém jamais escapava. Ela fascinava todos os homens, que partiam em uma busca desenfreada e psicótica, até que, enfim, podiam encontrá-La, sentada em um trono lapidado de ossos e diamantes. Seu riso era de escárnio, sua pele tão branca e gélida quanto a neve, seus olhos eram o mais puro negro.
Você provavelmente já cruzou com ela em suas andanças, e caso ainda não o tenha feito, mais cedo ou mais tarde a encontrará. Quando a hora chegar, o ar ficará denso, os olhos ficarão esbugalhados, e a sua boca, repleta de vermes tentará, em vão, repetir o nome Dela, aquele nome formado por cinco singelas letras, que irá nos calar para sempre.


Ela se chama Morte.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sobre mim e as palavras

Mas escrever é para raros. É um exercício de auto-conhecimento, é dilacerar-se em palavras, despedaçar a própria alma, e colocá-la em uma folha de papel. Quem escreve, sente. Quem sente, expõe as entranhas em pequenas frases desconexas, delitos literários que se comete em busca de compreensão.

Escrever é meu mal, meu vício, meu copo de vinho barato em uma sexta-feira à noite, na sarjeta. É a guimba de cigarro em tempos de guerra, pisoteada no chão e recolhida por aqueles que a ansiam. É a válvula de escape, meu país das maravilhas em preto e branco, para onde fujo sempre que o mundo fica pequeno ao meu redor.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Uma carta



Estive pensando sobre nós dois. Estive pensando sobre como eu pude me enganar tanto, a ponto de deixar nas mãos de alguém a responsabilidade de me fazer feliz. Agi como uma tola. Tal qual a criança que atira-se ao chão por birra, pensei que, exagerando, poderia vencer sempre. Não, hoje entendo, eu não ganhei nada, ao mesmo tempo em que perdi tudo. Apostei todas as minhas fichas no número errado. A roleta girou e, infelizmente, fiquei ao lado dos perdedores. Nada de ouro para mim, somente a lama e os dejetos.
Voltei ao meu estado inicial, ao meu maldito ceticismo, que me impede de acreditar em qualquer coisa ou pessoa. Que ninguém, jamais, ouse vir a mim de coração aberto. Amar é responsabilidade demais, é preciso dar de si sem esperar nada em troca, não posso mais simular esse altruísmo, seria fatigante. Nunca mais irei me cortar em pedaços, ama-me por completo, ou deixa-me seguir adiante.
Ou melhor, não ouse me amar. Ninguém tem o direito de dedicar a própria vida a mim, quando mal posso comigo mesma. Seria um insulto, uma afronta que não estou disposta a permitir.

Sem beijos e nem delongas, não sou e nunca serei sua, pois não pertenço nem a mim. Sou criatura do mundo, bicho livre, que nasceu para correr solto por aí. Adeus.